domingo, 31 de março de 2013

Diretora agredida a socos quer punição para aluno

A diretora Leila Soares mostra a foto com as marcas que os socos deixaram em seu rosto
De um lado, a evocação da autoridade; do outro, a afirmação pessoal, típica de quem está caminhando para a idade adulta e vive numa favela dominada pelo tráfico. O ringue: a Escola Municipal João Kopke, de educação fundamental, em Piedade, a cerca de 300 metros do Morro do Urubu. No colégio, frequentado metade por alunos do asfalto e metade pelos da favela, nunca havia ocorrido um caso de agressão grave. Até o último dia 21, quando a diretora do colégio, Leila Soares, de 43 anos, foi atacada a socos por um aluno de 15 anos. Ele contou e diz que foram oito golpes. 

Leila só sabe que foram vários. A professora quer uma punição exemplar. O estudante acha que um pedido de desculpas já seria o suficiente. Cada um conta a sua versão.

As marcas dos socos no rosto da pedagoga, há quatro anos à frente da João Kopke, já desapareceram, mas a imagem do agressor partindo em sua direção continua bem nítida em sua mente. Ela sente fortes dores de cabeça e não escuta com o ouvido direito. Em seu apartamento, numa rua de classe média do subúrbio, Leila tenta se recuperar do trauma e manter as aparências na hora da lição de casa dos dois filhos, de 6 e 12 anos. Ela vem de uma família cuja tradição é a vocação pelo magistério. Foi normalista do Carmela Dutra, colégio de Madureira voltado para a formação de professores. Rígida, diz que tem como principal virtude ouvir e que costuma pedir para não ser interrompida quando conversa um assunto sério com um aluno ou responsável.

Perto da escola, numa construção tosca de alvenaria, no alto do Morro do Urubu, já no bairro de Pilares, onde o esgoto desce pelas vielas, provocando um mau cheiro insuportável que entra pela única janela do imóvel, mora o adolescente de 15 anos que socou Leila. A casa fica ao lado de uma outra fincada na pedra que ameaça desabar a qualquer chuva mais forte. Dentro dela, nenhuma TV funciona com todas as funções: de uma, só se aproveita a imagem; de outra, o som. O jeito é ligar as duas ao mesmo tempo.

O DVD player é emprestado, e o celular velho não tem chip. A geladeira, enferrujada, com a porta despencada, serve de armário: há alguns dias, um quilo da sardinha, xepa da feira local, estragou por falta de refrigeração. O cômodo da casa onde mora a família, que faz as vezes de quarto e sala, tem cerca de 12 metros quadrados. Há dias o prato principal tem salsicha e ovo, comprados com os R$ 134 do Bolsa Família.

Nesse cenário, não há espaço para o diálogo, apenas para brigas e sessões de espancamento, reconhece a paraibana de Campina Grande, de 38 anos, mãe do jovem agressor. Ela se diz vítima do marido, mas não tem coragem de denunciá-lo à polícia, pois o morro é ocupado pelo tráfico. O socorro vem do próprio adolescente que bateu na professora, o segundo dos três filhos da mulher, considerado o mais calmo da família. É ele quem suplica ao pai que pare de bater na mãe, pois “numa mulher nunca se bate”.

No dia 21, o adolescente, que faz o 7º ano do ensino fundamental, no programa de aceleração escolar, não seguiu à risca seu próprio pensamento.

— O sangue subiu, e eu agredi a diretora. Ela está falando que escorreu sangue, mas eu não vi nada — diz ele, apoiado pela mãe, segundo a qual a professora ficou com a “cara perfeita” (sem machucados).


“Me chamou de demônio. Eu explodi”
Foi quando subia a escada da escola que leva ao pátio que a diretora se deparou com o estudante. Com uma chave de braço, ele estava atracado com um vizinho, seu melhor amigo. Não era briga, apenas um jeito meio bruto de demonstrar afeto. A partir daí, as versões divergem. O estudante alega que esbarrou na diretora; ela diz que foi empurrada.

— A gente tem a mania de andar agarrado. Aí ela disse: “Não quero agarramento”. Desci um degrau e esbarrei nela. Estressada, ela me empurrou, foi comigo na secretaria, falando alto. Não gostei. Ela chegou perto de mim e me chamou de alguns nomes. Me mandou para o inferno e me chamou de demônio. Eu explodi.

Leila diz que os fatos foram outros:
— Não me lembro de tê-lo chamado de demônio. Acho que ele é mau. Enquanto não me bateu, não sossegou. A missão dele naquele dia era dar soco em alguém. Fui eu a vítima. Tanto é que ele foi tranquilamente para o pátio contar o feito para os amigos. Não acredito que ele estivesse surtado ou drogado. Chamei a ronda escolar, e ele foi conduzido pela Guarda Municipal.

O que teria enfurecido o adolescente, que estuda lá desde 2011, foi ser chamado de demônio. É assim que a mãe dele se refere ao pai, pedreiro desemprego, que tem problemas “nos nervos” e toma remédios com tarja preta diariamente. Depois que o filho foi levado para a 24ª DP (Piedade) para se explicar, a mãe teria pegado alguns comprimidos do marido para se acalmar.

Com 23 anos de magistério no município, Leila, que já atuou como professora, coordenadora pedagógica e gerente de uma Coordenadoria Regional de Educação, enfrentou situações delicadas em outras escolas. Numa ocasião, precisou chamar a atenção de uma aluno que ameaçara uma funcionária:

— O aluno disse à merendeira: “Cuidado que você pode acordar com a boca cheia de formiga”. Aí eu o chamei e falei: “Você sabe rezar? Então reza para não cair sequer um cisco no olho dela, porque, se isso acontecer, vai cair na sua conta”. Ele alegou que era brincadeira.

Numa escola do Complexo do Alemão, Leila teve que se deitar no chão por causa de um tiroteio na comunidade. Era comum, às segundas-feiras, antes das UPPs na região, as professoras recolherem uma sacola com projéteis que caíam dentro do colégio.

Na João Kopke desde 2009, Leila orgulha-se de ter mudado o ambiente da escola, o que fez com que o colégio, de 300 alunos, pulasse para 700.

— Conheço cada aluno pelo nome e, quando percebo tentativa de abuso, falo: “Eu jogo bola com você na Paquequer (rua da região)? Então não sou sua colega”. Eles precisam saber seus limites.

Dessa forma, a diretora não se conforma com o fato de o jovem não ter ido à Vara da Infância e Adolescência até o dia 22, como estava marcado:
— Eu gostaria que ele cumprisse uma medida socioeducativa. A mãe acha que é simples ele ter socado alguém.

Sem dinheiro para o ônibus, a mãe do adolescente conta que não pôde levar o filho, que não tem o nome do pai registrado na certidão de nascimento.

— Vou segunda-feira (amanhã). Se não conseguir o dinheiro da passagem, vou ter que pedir ao tráfico — diz ela.

O jovem nega ter rido da diretora, como ela alega. E completa:
— Estou até arrependido porque agredi a diretora, uma mulher. Não gosto de fazer isso. Mas daí a falarem que eu vou entrar para a vida do crime... Isso nunca vai acontecer — garantiu ele, embora tenha ficado mais conhecido no Morro do Urubu, ganhando a simpatia dos traficantes por ter enfrentado a diretora.

O Globo

Cláudio Leitão: Cabo Frio, noventa dias de governo


Noventa Dias: Uma Radiografia da Continuidade

O atual governo de Cabo Frio capitaneado pelo prefeito Alair Correa acaba de completar 90 dias. Logo, surge a pergunta: Será que é cedo para se fazer qualquer tipo de análise?

Na minha modesta opinião, penso que não. Até porque o prefeito e seu grupo alardearam o tempo todo durante a campanha eleitoral que eram os mais experientes para “darem um jeito” na cidade, que analisavam na época como desgovernada.

Diziam que o governo MM era perdulário e de péssima gestão. Falavam com todo “cuidado” que também havia denúncias de corrupção. Acrescentavam que durante os oito anos de MM, a saúde e a educação foram sucateadas como se não tivessem nenhuma responsabilidade neste caos por suas gestões anteriores.

O novo governo assume e vêm as medidas iniciais. Nada mais igual do que se pratica em termos de gestão pública em Cabo Frio nos últimos vinte anos.

Começam aumentando o número de secretarias e coordenadorias com clara intenção de “abrigar” aliados da campanha eleitoral. Criam sem nenhuma necessidade uma nova autarquia para Tamoios, a CODESTAM, que também “absorve” os aliados de campanha daquela localidade, com o objetivo de implementar as políticas públicas que o segundo distrito cobra com muita razão,  mas que poderiam tranquilamente serem implementadas pelas respectivas secretarias já existentes. Nenhuma medida para reduzir o inchaço da máquina pública no “andar de cima” que perdura e é marco destas administrações. Nomeações quase sempre políticas e com critério técnico pouco valorizado.

Disso, nasce a dificuldade inicial de cumprir o PCCR, que era merecido, apesar de ter sido feito de forma oportunista pelo governo MM em fim de mandato. Sucessivas falhas operacionais da área de RH causam grande desgaste ao governo e ninguém sabe quando serão saneadas. O funcionalismo sofre com estes erros primários, inclusive, com prejuízo salarial.

A cidade precisa de mais médicos, professores e demais profissionais para atender as demandas sempre crescentes da saúde e da educação, daí a necessidade de uma redução das portarias no “andar de cima” para permitir a contratação, preferencialmente por concurso público, no “andar de baixo” para atender melhor a população. 

As primeiras medidas na saúde, não produzem resultados satisfatórios. Focam no atendimento emergencial tentando recuperar a operacionalidade do embuste chamado UPA. Não reabrem o HCE com os equipamentos prometidos e nem sinalizam o aumento das unidades do Programa de Saúde da Família (PSFs). Insistem com “melhorazinhas” na famigerada Central de Marcação de Consultas que eles criaram e depois prometeram durante a campanha, acabar. É necessário e urgente a cobertura de 100% da cidade com os PSFs  para dar o primeiro atendimento com um médico generalista, visando reduzir a demanda nas emergências e também nas clínicas de especialidade. Ele seria o médico da triagem e não este sistema de passar pelo clínico geral das clínicas de especialidades, via central de marcação de consultas como foi implementado. O grosso do investimento precisa ser direcionado para cuidar da saúde da população e não para tratar da doença, o que vai onerar cada vez mais o orçamento.

Na educação a velha repetição. Nenhuma mudança de projeto pedagógico para atender melhor as necessidades dos alunos e motivar os professores e demais profissionais. Pelo contrário, incompetência no recadastramento e remanejamento, além de grande morosidade na tomada de decisões estratégicas. Continuam faltando professores e vagas nas creches.

Nenhuma medida foi tomada para dar mais transparência às contas públicas. Cadê o site da Transparência ? As denúncias de corrupção que fizeram fechar a SECAF serão divulgadas e os responsáveis punidos? As maracutaias e fraudes das licitações na saúde serão tornadas públicas com valores e nomes?  Parece que não. O governo que saiu disse que também “entregaria” as irregularidades anteriores. É o mesmo do mesmo.

O legislativo dócil está quase fazendo a Câmara de Vereadores apêndice do executivo. Quem já viu esse filme? Tem vereador que fala como secretário de governo! rsrs.

É cedo? O quadro pode mudar? Sim, mais a sinalização das primeiras medidas  não caminham neste sentido. Fazer grandes obras como o alargamento da Rua Teixeira e Souza e a modificação do desenho da Avenida do Contorno, não podem ser mais importantes do que resolver as demandas prioritárias que se apresentam na saúde e na educação. 

Existem outras questões, como a geração de empregos, o transporte público, a habitação popular, a segurança pública, a questão fundiária e muitas outras que vão ter que merecer atenção e medidas de resolução.

Existe um acúmulo de problemas em todas estas áreas que não é de responsabilidade apenas de um governo que tristemente passou, mas sim, de todos estes grupos políticos que estiveram no poder durante os últimos vinte anos e que desperdiçaram mais de 5 bilhões de reais, aí incluídos os royalties, que muito pouco produziram em termos de políticas públicas.

Este governo atual faz parte deste “bolo” e não tem legitimidade para reclamar de nenhuma “herança maldita”.

Há tempo e recursos orçamentários para promover uma grande mudança na gestão, mas a sociedade precisa estar atenta e buscar uma postura mais crítica e fiscalizadora.

“Que continuemos a nos omitir na política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem”.
Bertolt Brecht

Claudio Leitão é economista e membro da executiva do PSOL Cabo Frio.

Cristãos mais intolerantes em um Brasil cada vez mais evangélico

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. 

Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.

 - Você é evangélico? – ela perguntou.
 - Sou! – ele respondeu, animado.
 - De que igreja?
 - Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.

- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.

- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...

O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)

Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:
- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.  

A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.

Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.

Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. 

É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas.

É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.

Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.

Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele. 
ELIANE BRUM é jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem.
Época

Robert Fisk: Os olhos do mundo são adestrados para não ver Israel, mas...

Será o quê? Tragédia, farsa ou turismo? Obama é turista, diz o Davy Crockett da vanguarda do jornalismo norte-americano e rei-filósofo do New York Times (codinome T. Friedman). Mas não, Friedman errou. O vencedor do Prêmio Nobel de Belos Discursos terá de ser, no mínimo, um superturista – com 10 mil guias turísticos israelenses e norte-americanos armados a cercá-lo, só em Jerusalém. O caso é que, Sr. Presidente… há o muro. Não. É “O Muro”. Falo daquela paliçada otomana de cada lado da Porta de Damasco.


Mas, claro: se realmente chegar à Gruta da Manjedoura, Obama não terá como não ver – será que fechará os olhos? Nem uma espiadinha? – o muro real (codinome: barreira/cerca de segurança). É verdade: Berlusconi declarou que não viu. Mas até Mussolini perceberia, pelo menos o gigantismo fascista daquele muro. É. As coisas são o que são. O presidente excepcional deve “engajar” o público jovem. Por sobre as cabeças dos donos do mundo, levar “A Palavra” aos jovens. O caso é que os jovens, da variedade israelense e palestina, não dão sinal de confiar muito naquela conversa.

Mas Obama dá dó. Que outro estadista, antes de viajar a Israel, reuniria grupo seleto de líderes da comunidade judaica dos EUA e prometeria – de fato, insistiria, ansioso por convencer – que não tomaria iniciativa alguma, que não se preocupassem?


HUMILHAÇÃO
Todos lembramos a Humilhação de Santo Barack. Quando falou das fronteiras de 1967 na Casa Branca, e Netanyahu interrompeu-o e lhe disse que não, não. Que esquecesse. E Obama lá ficou, sentado, miseravelmente, parecendo um trapo vivo, triturado pela Britadeira Benjamin. Fim de papo, então, sobre fronteiras de 1967 e Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU. 

Mas, afinal… Obama ouve os conselhos do conselheiro que se revelou o maior fiasco da política externa dos EUA desde Joseph Kennedy: o muito aclamado zero à esquerda, inutilidade além de qualquer esperança, Dennis Ross.

Teremos de tolerar os clichês de sempre, é claro, tanto de Santo Barack como dos sapos do brejo da imprensa. Esse infame processo de paz tem de ser posto “de volta nos trilhos”, ou talvez ouçamos falar do “mapa do caminho” – o qual, parece, jamais é posto “de volta nos trilhos”, porque trem não anda em tapetes vermelhos de pistas de aeroportos. E não esqueçam o Irã, sobre o qual nosso herói dirá a todos os israelenses que vir que “todas as opções estão sobre a mesa”. E por que, santo deus, “sobre a mesa”?!


MÍSSEIS NUCLEARES
É claro que as opções estão em bunkers, talvez, até, nos não mencionáveis, indizíveis silos nos quais a Britadeira Benjamin mantém trancados seus mais de 250 mísseis nucleares. Mas, aí, alguém nos lembrará de todos os Macbeths salpicados pela região. Não o degolador de Riad, é claro, porque, esse, é amigo da gente, mas, com certeza o doido de Teerã; ou Mursi, aquela coruja; ou o outro, no palácio presidencial em Damasco; e mais aquele bando de salafistas Calibãs – ou serão Talibãs? – na espreita para destruírem a civilização ocidental (da qual Israel faz parte, ou já não faz?).
Oh yes, vai ser briga de foice no escuro, se Obama não prestar atenção. Os israelenses esconderam os palestinos bem longe, atrás de O Muro; e o único líder palestino histórico (esqueçam Abbas) que Obama verá será o velho Grande Mufti, sentado ao lado de Hitler numa fotografia no memorial do Holocausto, como se al-Husseini tivesse contagiado, com nazismo, todos os palestinos, para sempre.

E Blair? Será que dará as caras? Deus nos proteja de Blair! Já corre sangue de Cristo demais no Oriente Médio, sem aquele Dr. Fausto por lá! E fica-se a conjecturar se alguém se atreverá a dizer que ali vivem palestinos, sob ocupação de israelenses incondicionalmente apoiados por Santo Barack e seus escudeiros. Mas talvez ele cite o “processo de paz”, talvez tente. O “redeslocamento” da política externa dos EUA. É. Como o “redeslocamento” de Napoleão, fugindo de Moscou; ou como o “redeslocamento” dos britânicos, de Dunquerque. Fica-se com pena dos palestinos. E dos israelenses.

Robert Fisk  (The Independent, UK)

Tribuna

Crime! GM demite 596 metalúrgicos

Essa é a lógica do "Deus Mercado": Quanto mais lucro tiver, mais se demite!!!

A montadora estadunidense General Motors anunciou ontem a demissão de 596 operários da sua unidade em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Os metalúrgicos dispensados estavam com o contrato de trabalho suspenso (lay-off), recebendo salários, desde agosto de 2012. A GM justificou o corte alegando dificuldades econômicas e a transferência de parte da produção para outras cidades. Com a sua ação criminosa, a multinacional encerra o processo de negociação com o sindicato da categoria. 

Em nota, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, filiado à Conlutas, criticou a decisão. “O fato é que não existe motivo para demissões. Os trabalhadores que estão na fábrica têm feito excesso de hora extra, o que confirma que a produção está em alta. Além disso, a GM continua importando veículos da Coreia, Argentina e México. Se esses carros fossem produzidos aqui, o cenário seria bem diferente”. A entidade até apresentou alternativas para a manutenção dos empregos, mas a multinacional foi inflexível. 

De fato, a desculpa apresentada pela GM não se sustenta. A exemplo de outras multinacionais do setor, a General Motors aufere altos lucros no país. Parte deles é remetido para a matriz nos EUA, que atravessa grave crise. Como aponta Joel Silveira Leite, especialista no estudo do setor automotivo, o “lucro Brasil” das montadoras é absurdo e elas não têm do que reclamar. O preço dos veículos no país é bem superior ao dos mesmos modelos vendidos em outras nações – em alguns casos, ele é quase do dobro.

Mesmo assim, as multinacionais fazem terrorismo para obter maiores vantagens do governo. Nos últimos anos, várias medidas foram editadas para reduzir o IPI das montadoras e garantir subsídios federais. Estes favores não resultaram na queda do preço dos veículos – tanto que o próprio Senado convocou audiência pública para “esclarecer as razões dos altos preços dos veículos automotores no país e discutir medidas para a solução do problema”. Eles também não garantiram a manutenção do emprego dos 596 operários de São José dos Campos. Um verdadeiro crime!

Blog do Miro

1º de Abril 1964: Ditadura Nunca Mais!!!

Nem perdão, nem esquecimento, nem reconciliação: punição para os responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar!




Maria, me traga um copo d’água!


Vira, mexe, remexe, o reacionarismo brasileiro, com seus privilégios ameaçados, vem à tona. Basta um pequeno passo em direção à igualdade para que, mesmo querendo se esconder atrás de argumentos “empíricos”, saia da toca e se apresente sem máscara ou filtro.

Não são raros esses momentos. As cotas, o voto de analfabetos, o direito dos trabalhadores rurais, o sufrágio feminino, o direito à greve e à sindicalização ou o fim da escravidão, tiveram em comum um progresso da ideia de igualdade.

Todos também provocaram celeumas, comichão e coceiras naqueles privilegiados. Como assim mulher votar ou trabalhar? E a sacralidade da família? E meu lar e meus filhos? Quem cuidará? (Minha mulher trabalhando? Tendo uma vida autônoma? Tenho medo!)

Na terça-feira (26), demos mais um passo nesta direção. Foi aprovada a “PEC das domésticas”, que iguala os direitos destas ao de qualquer outro empregado. Cerca de 4 milhões de trabalhadores, a maior categoria, estavam à margem da igualdade. Tinham menos direitos que os outros.

Bastou. Os nossos queridos reacionários avançaram em busca de argumentos do aumento do desemprego dos trabalhadores domésticos para justificar que a lei seria ruim.... para estes!

O “argumento” funciona assim: Mais direitos, mais custos. Como uma parte (chutam um número qualquer, “a maioria” de preferência), como “a maioria” não vai poder pagar estes custos, a suposta beneficiada pela lei será, de fato, a mais prejudicada!

Fico comovido com tamanho altruísmo. Sério. Encantado como nós, os brasileiros cordiais, pensamos no bem dos outros.


Foi assim também quando pensamos no emprego dos trabalhadores rurais. Estes não sabiam, coitados, burrinhos que são, mas fomos contra a expansão dos direitos trabalhistas porque pensamos nos salários deles, em como iam criar sua prole, suas crias, se fossem demitidos por terem virado mão de obra cara.

Também, vejam, fomos contra a abolição da escravidão. Dos escravos nós cuidávamos, e bem, afinal somos cristãos. Com a libertação, iam ficar sem comida, vadiando pelas cidades, em uma vida miserável. Na senzala tinham teto, comida, afeto.

Domésticos, nós somos seus amigos. Você é quase da família, oras! Não se senta à mesa para almoçar conosco porque seu uniforme está sujo, e não é de bom tom sentar à mesa com uma roupa engordurada assim.

Por isso, caros, não se iludam. Igualdade é ruim para vocês. E, bondosos que somos, sempre pensamos em vocês primeiramente.

Mas chega de papinho furado que não estou com a vida ganha, que não tenho ninguém que cuide de mim como cuido de você, Maria.

Aliás, Maria, traga um copo d'água AGORA para Pedrinho, que vai jogar o videogame novo que comprei com meu 13º. Seja rápida!

Walter Hupsel   On the Rocks

sexta-feira, 29 de março de 2013

Professores agredidos são humilhados nas delegacias

Alunos mostram cartazes contra violência na porta de escola municipal onde diretora foi espancada
Educadores recorrem à Corregedoria e até ao Ministério Público para registrar queixas

Se não bastasse a agressão física e verbal de alunos enfurecidos, professores que são vítimas de violência nas escolas têm enfrentado verdadeiro martírio para fazer o registro de ocorrência nas delegacias do Rio. 

O último episódio de repercussão, o caso de Leila Soares, diretora da Escola Municipal João Kopke, em Piedade — que foi espancada por um aluno de 15 anos —, acabou na Corregedoria da Polícia Civil. Mas não foi o único. Alguns educadores foram parar no Ministério Público para conseguir fazer um boletim.

“Fui tratada com sarcasmo. Tinha sido esbofeteada, socada. Passar por esta situação me deixou pior ainda. Um policial não tem que tomar partido. Ele tem que fazer o trabalho dele, que é registrar o fato”, afirmou Leila, que procurou a Corregedoria para relatar o tratamento que recebeu na 24ª DP (Piedade).

Situações como a dela são mais comuns do que se imagina. Professor de uma escola estadual de Brás de Pina foi ridicularizado ao tentar fazer a queixa na 22ª DP (Penha) contra dois alunos, de 20 e 21 anos, que o agrediram verbalmente. “Fui atendido por um inspetor que do primeiro ao último momento se negou a fazer o boletim. Ele disse que a polícia é para resolver crimes e não problemas escolares”, contou o educador.

Um outro professor de um colégio do Estado, no bairro de Olaria, não se conformou com as negativas recebidas na delegacia. Ele foi ao Ministério Público (MP) registrar a ocorrência contra a mãe de aluno de 13 anos, que invadiu a sala de aula dele e o xingou. “O policial me disse que não havia necessidade de registro. Eu falei que ela havia me desacatado. Fui ao setor de inquéritos do MP e consegui fazer. Lá, tipificaram como perturbação do trabalho. A mulher entrou na sala, que estava com alunos menores, e gritou que achava estranho que, em tempos de pedofilia, um professor mandasse uma criança desenhar órgão reprodutor na prova”, contou ele, que dá aula de Ciências.


Polícia Civil orienta ir à Corregedoria
De acordo com a assessoria da Polícia Civil, todos os professores têm o direito de fazer o registro de ocorrência quando procurarem uma delegacia. Segundo eles, “o cidadão que se sentir desrespeitado deve procurar a Corregedoria Interna da Polícia Civil para denunciar”.

A instituição afirmou ainda, em nota, que uma das principais diretrizes da gestão da chefe de Polícia Civil, a delegada Martha Rocha, é o bom atendimento ao público, com respeito, eficiência e ética.


Secretarias admitem: não há política interna antiviolência
Apesar da dificuldade dos professores, a orientação das secretarias de Educação do Estado e do município é para que os casos de agressão sejam registrados na delegacia. Segundo os dois órgãos, não há nenhuma política interna direcionada para tentar resolver a questão da violência apenas no âmbito da unidade escolar.

Para um dos diretores do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio (Sepe), Gualberto Tinoco, o número de agressões contra professores é muito maior do que se chega ao conhecimento deles e do governo, já que muitos casos esbarram na recusa da polícia de fazer a ocorrência. Segundo ele, o problema envolve a falta de pessoal nas delegacias e também uma cultura de que problemas na escola não são sérios.

“O policial está estressado, sobrecarregado, sem equipamento de trabalho. Quando ele se depara com um professor agredido, ele não consegue entender que isso é crime, por isso tenta desmotivar o registro”.

O Dia

quinta-feira, 28 de março de 2013

"Realpolitik" de Obama só serviu para enterrar questão palestina

Crianças palestinas deixam Obama no vácuo: "Vai lavar essa mão primeiro!"  
O presidente dos Estados Unidos tenta cumprimentar crianças palestinas durante sua recente visita ao oriente Médio

A visita do presidente norte-americano, ao contrário do que possa parecer, contribuiu para aumentar violência e preconceitos contra os palestinos.

A visita de Barack Obama, presidente dos EUA, a Israel semana passada (de 20 a 22 de março) foi reveladora de um futuro pouco promissor para a questão palestina e sombria para a região. Não tivemos acesso aos encontros fechados com Benjamin Netanyahu (o primeiro-ministro) e Shimon Peres (o presidente). Nem tampouco soubemos o que ele falou a Mahmud Abbas, líder da Autoridade Nacional Palestina.

No entanto, seus discursos foram reveladores. Sabíamos desde o início que o presidente norte-americano viria reforçar os laços com Israel, apartar qualquer imagem que pudesse ter ficado de que há rusgas entre ele e Netanyahu (que apoiou Mitt Romney na eleição dos EUA) em nome do interesse comum que compartilham.
O presidente “nobel da paz” veio tocar os tambores da guerra. No seu primeiro mandato, abriu suas viagens internacionais no Egito. Falou árabe e citou o Corão numa iniciativa que procurava acabar com os oito anos anteriores, quando as operações militares norte-americanas baseavam-se num discurso islamofóbico e anti-árabe. Era o antídoto de Bush filho. As guerras dos EUA não acabaram – as tropas ainda estão no Afeganistão –, mas estavam revestidas de tolerância.

Agora não. Obama fez todas as cortesias a seu maior aliado na região, o que generais norte-americanos, como David Petraeus, detectaram como fonte do sentimento anti-americano no Oriente Médio. O general, ex-comandante de operações do exército dos EUA no Afeganistão entre 2010 e 2011 e diretor da CIA (central de inteligência norte-americana) até 2012, disse em março de 2010, em declaração ao Comitê de Serviços Armados do Senado: “O conflito (Israel-Palestina) fomenta sentimentos anti-americanos devido à percepção do favorecimento dos EUA a Israel. A raiva árabe devido à questão palestina limita a força e a profundidade das parcerias dos EUA com governos e povos na área de operação e enfraquece a legitimidade de regimes moderados no mundo árabe”.

Obama veio baseado na sua própria realpolitik. Ali estava o pedido de desculpas que Netanyahu devia ao primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, desde o ataque à flotilha turca Mavi Marmara que se dirigia à Gaza, quando morreram nove turcos. Já na sexta-feira (22/03), o israelense deu início ao processo para por fim à crise com a Turquia.
Não há paz no discurso de Obama, e não há solidariedade no ato de Netanyahu, que já deixou claro que o resgate do diálogo com a Turquia não resultará na reabertura de Gaza. Mas a Turquia é uma peça indispensável na crise da Síria, nela a não tão estruturada oposição a Bashar al Assad, representada pelo Conselho Nacional da Síria e pelo Exército Sírio Livre, tem trânsito livre e recebe apoio da CIA, bem como de forças especiais francesas e britânicas.

Por sua vez, a Síria também é apenas uma peça estratégica no dominó trilhado entre EUA e Ásia, passando pelo Oriente Médio. A queda de Assad é uma necessidade para que os estadunidenses firmem o pé no país e façam com que Rússia, aliada do regime de Assad, e China, importante aliada comercial, recuem. De quebra, os EUA ainda poriam fim na aliança entre Síria e Hezbollah, no Líbano.

Nesta terça-feira (26/03), a Reuters noticiou que o governo de Moscou quer que Rússia e China participem das investigações que a ONU vai realizar para descobrir o responsável pelo assassinato de 26 pessoas por armas químicas na semana passada na Síria. A lei internacional como continuação da guerra.

Outra consequência relevante da queda de Assad seria a desestabilização do Irã, o principal aliado da Síria, e principal inimigo dos EUA e Israel no Oriente Médio. Enquanto esses países se colocam como nações éticas e democráticas exigindo que o Irã cesse seu programa nuclear, sendo que ambos sequer aprovaram o TNP (Tratado de Não Proliferação Nuclear), o objetivo escondido é retirar o Irã do centro do comércio com a China e Rússia e derrubar sua força econômica no Oriente Médio.
Mas ao cercar-se do apoio de Netanyahu, Obama passou um cheque em branco para que o governo israelense faça o que desejar, internamente ou na política externa. Seu discurso ousado e tendencioso em um lugar em que as narrativas competem. A nakba ou a independência? O direito de retorno ou a alyiah? Nessa realidade altamente explosiva, onde os historiadores tornam-se inimigos do Estado, o presidente delineou a narrativa sionista na sua mais tradicional forma. Obama foi mais sionista do que o rei.

Quando pisou em Israel, ele disse: “Estou tão honrado de estar aqui enquanto vocês se preparam para comemorar o 65º aniversário de liberdade e independência do Estado de Israel. E eu sei que pisando nesta terra, caminharei com vocês pela terra de origem histórica do povo judeu”.

Isso uma semana após Netanyahu ter acertado sua nova coalizão de governo. No acordo fechado entre os partidos, ficou acertado que seria proposta nova Lei Básica para que o caráter judeu do Estado seja predominante em relação a seu caráter democrático. Essa mesma legislatura que quer colocar a democracia como um adereço mereceu intensos elogios de Obama. “Nos EUA, trabalhamos duro para encontrar um acordo entre os dois maiores partidos. Aqui, em Israel, você tem que encontrar um consenso entre muitos mais. E poucas legislaturas podem competir em intensidade com o Knesset. Mas tudo isso reflete a natureza próspera da democracia israelense”.

Obama não devia saber do acordo. Não deve saber das políticas israelenses no sul do país, onde judeus ganham cidades e árabes beduínos têm suas terras tomadas e casas demolidas. O presidente não deve ter conhecimento da lei de cidadania sobre reunião familiar, que decide quem pode casar ou não, e dos comitês de bairros que podem decidir quem pode morar em uma vila ou cidade, com critérios duvidosos em um ambiente carregado de divisões étnicas.

Um dia depois do adeus do presidente, o Haaretz soltou a matéria “Quando as expressões de racismo não são mais exceção”, em que mostra o problema que enfrentam as escolas, com demonstrações abertas de racismo contra árabes por parte de crianças e adolescentes. O misto de medo e ódio incutido vem de uma origem social que pensa a si mesmo como um grupo exclusivo e excludente. Um dos meninos diz: “Eu não quero conhecer os árabes ou chegar a ter um contato com eles. Verdade, eles vivem perto de nós, mas eles não me despertam nenhum interesse e não cabe a mim aprender sobre sua cultura, porque eles são os inimigos. Não há necessidade de aprender sobre eles. Apenas meu time (Beitar Jerusalem), os judeus e judaísmo são de meu interesse”.

No segundo dia, em que Obama falou para alguns jovens israelenses, se ignorou os palestinos dentro de Israel, por um momento procurou fazer com que a juventude judaica pensasse na difícil situação dos palestinos nos territórios ocupados. “Veja o mundo por seus olhos. Não é justo que uma criança palestina não possa crescer em um Estado seu. Vivendo todas as suas vidas com a presença de um exército estrangeiro que controla o movimento não apenas dessa juventude, mas de seus pais, seus avós. Não é correto quando há violência impune de colonos contra palestinos. Não é correto prevenir palestinos de arar sua terra; ou restringir a habilidade de um estudante de se mover dentro da Cisjordânia; ou expulsar famílias palestinas de suas casas”.

Então ele sabe. Nobre, se não fosse hipócrita. Obama foi um mau exemplo para a juventude de Israel.

Vejamos. Na coletiva do primeiro dia, disse o presidente: “Hoje nosso pessoal militar e de inteligência cooperam mais próximos do que jamais o fizeram; conduzimos mais exercícios conjuntos e de treinamento do que jamais o fizemos; (...) Como resultado das decisões que fiz ano passado, Israel irá receber cerca de 200 milhões de dólares neste ano fiscal.... Estes são lembretes mais profundos de que iremos ajudar a preservar o qualitativo exército de ponta de Israel para que possa se defender por si mesmo contra qualquer ameaça”.

Palestinas são obrigadas a passar por revistas diariamente para ir ao trabalho

Quando não falou de armas, pediu aos jovens israelenses pressionassem o seu governo a conseguir paz, a “Solução dos Dois Estados”. Esqueceu de dizer que ele mesmo não o faz. Os treinamentos que o seu exército realiza anualmente com Israel (o último deles ocorreu no final de 2012) ocorrem no vale do Jordão, área C (controle militar israelense) da Cisjordânia, que, por jurisdição internacional, faz parte do Estado palestino.

A presença do exército israelense, ao lado de assentamentos de agricultura, ocupando um grande trato do que seria a Cisjordânia, faz daquela parte um corpo efetivamente anexado a Israel. Parte do procedimento dos treinamentos é expulsar famílias de suas casas provisoriamente. Em outro canto, Jerusalém Oriental, a parte anexada que Obama percorreu quando foi a Belém visitar a Igreja da Natividade, não existe mais como uma entidade palestina contínua.

Relatório de 2012 da União Europeia diz que “se a implementação das atuais políticas de Israel em relação à cidade continuar, particularmente a atividade de assentamentos, o prospecto de Jerusalém como capital de dois Estados, Israel e Palestina, torna-se impraticável. Isso ameaça fazer a Solução de Dois Estados impossível”.

Portanto, depois de exaltar a cooperação militar sem precedentes e exortar os israelenses a se defenderem por seus próprios meios, dentro de uma lógica que legitima a visão da construção do Estado baseada na Bíblia, falar em dois Estados parece uma piada.

Obama veio ao Oriente Médio não como mensageiro da paz, mas como voz da hegemonia norte-americana, veio mover a próxima peça da luta pela sobrevivência de uma hegemonia já fraquejada no embate geopolítico e comercial frente às novas potências mundiais.

E para alimentar sua realpolitik, ignorou a história, o racismo de Estado e a deterioração de qualquer característica democrática que possa ainda haver em Israel. Barack ignorou os palestinos que usam modelos de lutas por direitos civis, que o movimento negro usou nos anos 1960 nos EUA, para pedir o fim da ocupação.

Insistia em falar da humanidade de Sderot e não de Gaza (que sua ajuda militar deve ter ajudado a destruir). Talvez os palestinos achassem que Obama se comovesse ao ver que usam os protestos civis que muito provavelmente ajudaram o presidente a chegar à Casa Branca. Mas, não, Barack Hussein Obama veio endossar as políticas de um governo que, de seus muitos modos, está dizendo aos palestinos para se sentarem na parte de trás do ônibus.

Arturo Hartmann  Opera Mundi 

Proposta que enterra o Estado Laico no Brasil pode ser aprovada na Câmara

Proposta do deputado João Campos (PSDB) põe fim ao estado laico no Brasil
Câmara pode aprovar proposta que dá fim ao Estado Laico no Brasil. Comissão de Constituição e Justiça já aprovou permissão para religiosos interferirem nas leis brasileiras

Se é que existe a laicidade no Brasil, onde, pelo menos teoricamente, a religião não interfere no Estado, ela está para ter seu fim. Isso porque na manhã desta quarta-feira, 27 de março, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou a Proposta de Emenda à Constituição 99/11, do deputado João Campos.


A proposta inclui as entidades religiosas de âmbito nacional entre aquelas que podem propor ação direta de inconstitucionalidade e ação declaratória de constitucionalidade ao Supremo Tribunal Federal. Ou seja, religiosos poderão questionar decisões judiciais como a legalidade da união estável para casais de mesmo sexo, aprovada no Supremo em maio de 2011.

O texto segue para ser votado em plenário e, se aprovado, segue para votação no Senado Federal. A Ementa da PEC 99/11 versa que caso o texto seja aprovado ele “Acrescenta ao art. 103, da Constituição Federal, o inciso X, que dispõe sobre a capacidade postulatória das Associações Religiosas para propor ação de inconstitucionalidade e ação declaratória de constitucionalidade de leis ou atos normativos, perante a Constituição Federal”.

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania aprovou, nesta quarta-feira (27), a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 99/11, do deputado João Campos (PSDB-GO), que inclui as entidades religiosas de âmbito nacional entre aquelas que podem propor ação direta de inconstitucionalidade e ação declaratória de constitucionalidade ao Supremo Tribunal Federal (STF).


Entre estas entidades estão, por exemplo, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil e a Convenção Batista Nacional.

A proposta será analisada por uma comissão especial e, em seguida, votada em dois turnos pelo Plenário.

Autores
Hoje, só podem propor esse tipo de ação:
- o presidente da República;
- a Mesa do Senado Federal;
- a Mesa da Câmara dos Deputados;
- a Mesa de Assembleia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal;
- governador de Estado ou do Distrito Federal;
- o procurador-geral da República;
- o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil;
- partido político com representação no Congresso Nacional; e
- confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional.

Pragmatismo Político

terça-feira, 26 de março de 2013

Nota do Sepe sobre agressão sofrida por diretora


Hoje (25), um fato lamentável foi noticiado pela mídia. A diretora Leila Soares da Escola Municipal João Kopke, em Piedade, foi espancada por um aluno de 15 anos. O fato ocorreu na última quinta-feira (21), porém a profissional ainda está em estado de choque e com diversos ferimentos.
A EM João Kopke é apenas um exemplo do que acontece na maioria das escolas de nosso município. Nela, só existem duas agentes educacionais (antigo inspetor de alunos) para mais de 700 estudantes. As duas funcionárias administrativas ainda têm de se revezar no trabalho. Ou seja, na prática, uma agente educacional tem de coordenar mais de 700 crianças e adolescentes.

O acontecimento comprova a falta de estrutura e pessoal sofrida pelas escolas públicas municipais do Rio de Janeiro, que o Sepe denuncia há anos.

A direção do Sepe está na escola, dando todo apoio psicológico e jurídico à comunidade.

O sindicato também se coloca à disposição da professora Leila.
SEPE RJ

Defensoria Pública cobra moradias para desabrigados na serra do Rio. E o governador Cabral não está nem aí...

Na região serrana nenhuma casa foi construída, apenas barracas improvisadas para os desabrigados pelas chuvas em 2011
Dois anos depois das chuvas que arrasaram municípios da região serrana do Rio, dezenas de famílias que tiveram as casas destruídas ou interditadas ainda esperam por um lar, denunciou a coordenadora da Defensoria Pública Estadual em Petrópolis, Cristiana Mendes.


Ela disse que ainda há famílias mal alojadas desde as fortes chuvas de 2011, que atingiram a região deixando mais de 900 mortos.

“A situação de 2011 persiste até agora, porque nenhuma casa foi construída, nem pelo estado nem pelo município. Não há uma política habitacional definitiva, principalmente no Vale do Cuiabá, o mais atingido na época. Desta vez, foram afetados os bairros mais centrais, como o Quitandinha e o Independência”, disse Cristiana.

A defensora percorreu abrigos e locais atingidos pela última chuva em Petropólis para verificar a situação de quem precisou sair de casa. “A finalidade é diagnosticar alguns problemas que estão ocorrendo nos abrigos e pontos de apoio da cidade. Embora o município tenha se organizado e iniciado o cadastramento de todas essas famílias, nem todas elas foram atendidas por esses organismos municipais e pelo estado do Rio de Janeiro”, destacou a defensora pública.

AS DESCULPAS DE PEZÃO…
O vice-governador do Rio, e então secretário de Obras em 2011, Luiz Fernando Pezão, sustentou que diversas obras foram feitas na serra, mas que há dificuldade de se achar terrenos propícios para grandes projetos habitacionais.

“Nós já fizemos 63 encostas, construímos mais de 70 pontes, estamos fazendo a dragagem de rios. É dinheiro nosso e do governo federal. Está tudo sendo aplicado, temos prestação de contas de tudo. Vamos entregar, a partir de abril, entre apartamentos e casas, 320 moradias só em Nova Friburgo. Mas a topografia é muito difícil. Somente agora conseguimos liberar um terreno em Petrópolis, dos quatro que a gente quer. Se fosse fácil, já haveria muitos empreendimentos habitacionais”, disse o vice-governador.

NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG - Onde está Sergio Cabral? Quem responde por ele é Pezão. São dois inúteis, corruptos. Desde 2011, ainda não construiram uma só casa para os desabrigados na região serrana. Dois prédios construídos em Niterói acabam de ser demolidos, antes mesmo de ganharem “habite-se”. É desalentador. (C.N.)

Vladimir Platonow (Agência Brasil)

Tribuna

segunda-feira, 25 de março de 2013

Pela porta da frente

Vanessa nasceu e cresceu na periferia pobre de Taubaté. Sempre estudou em escola pública e até o ensino médio acreditava que toda faculdade era paga
Poder voltar à escola e ter mais chances de conseguir um trabalho longe da rotina extenuante do canavial. Esse era o maior desejo de Agenor Custódio, que entre os 12 e 18 anos cortava cana em Mato Grosso do Sul. O que jamais imaginou esse brasileiro nascido numa comunidade indígena da etnia Terena, em Aquidauana, era que, aos 39 anos, se formaria em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). 

Tampouco que viria a ter possibilidades de passar pela seleção do programa de mestrado na mesma instituição, qualificando-se a disputar, em condições de igualdade, uma boa vaga na área de audiovisual ou na carreira acadêmica. Localizada no interior paulista, a 230 quilômetros da capital, a UFSCar é uma das dez melhores do país, segundo indicadores de qualidade do Ministério da Educação.
“Sem as cotas seria impossível entrar numa universidade pública, gratuita, prestigiada, estudar, pesquisar e ainda ter a chance no mestrado”, diz Agenor, da etnia Terena e ex-cortador de cana
Agenor sempre teve dificuldades para estudar. Na adolescência largou a escola para trabalhar. Aos 21 anos se matriculou no ensino médio, que só concluiu aos 28. Mesmo assim foi aprovado no vestibular de Turismo de uma universidade pública de seu estado. Estava no terceiro ano quando teve de parar por falta de dinheiro para alimentação, moradia e transporte. Mas o sonho não morreu. Em 2008 ingressou na UFSCar graças à cota para indígenas; neste mês de março vai colar grau. “De outra forma seria impossível entrar numa universidade pública, gratuita, prestigiada, poder estudar como estudei, pesquisar e ainda ter a chance no mestrado”, avalia.

Sua vizinha de república, Vanessa David de Campos, 23 anos, aluna de Engenharia de Produção, também tem grandes expectativas. Ingressou na UFSCar em 2008, beneficiada pelas cotas para negros. Além de estudar, desenvolve atividades de pesquisa num grupo que dá consultoria em ergonomia para grandes empresas. Vanessa atua ainda na divulgação científica por meio do teatro, o que lhe permitiu conhecer praticamente todo o país, e num coletivo de estudos africanos.

Negra e primeira da família a entrar na universidade, a futura engenheira nasceu e cresceu na periferia pobre de Taubaté (SP). Sempre estudou em escola pública e até o ensino médio acreditava que toda faculdade era paga. Por isso foi estudar modelação industrial no Senai para entrar mais cedo no mercado de trabalho. Fazia curso técnico junto com o colegial, era aprendiz numa indústria de autopeças e tinha aulas nos fins de semana num cursinho popular. Aos 18 anos, com dinheiro emprestado, viajou sozinha pela primeira vez para se matricular em São Carlos. Sem computador portátil e dinheiro que mal dava para xerox, enfrentou dificuldades. “Tive muitas desilusões. Embora não seja declarado, o racismo existe aqui também”, afirma.

Uma nova cultura
Ex-metalúrgico, o colega Edmar Neves da Silva, 21 anos, do terceiro semestre de Ciências Sociais, ingressou na faculdade por meio da cota para oriundos da escola pública. Cursou a primeira metade do ensino fundamental na rede municipal de Mogi-Guaçu (SP), depois seguiu na rede estadual até o ensino médio. “A formação foi muito ruim, em especial no colegial, quando praticamente não tive professor de História”, lembra o estudante, que sempre quis chegar ao ensino superior público, pela gratuidade e pela qualidade. 
Edmar cursa o terceiro semestre de Ciências Sociais na UFSCar. “A formação foi muito ruim, em especial no colegial, quando praticamente não tive professor de História” 
O que o ajudou a suprir as falhas foi uma bolsa de um curso pré-vestibular particular que ganhou em 2010. Durante o dia trabalhava no controle de qualidade de uma fábrica e estudava à noite e também nos fins de semana.

Dirigente do diretório acadêmico da UFSCar, Edmar é o segundo entre os familiares a entrar numa faculdade. A irmã mais velha cursou Administração com bolsa integral do Programa Universidade para Todos (ProUni) e agora faz pós-graduação em Marketing. Os pais não conseguiram terminar o ensino fundamental.

Uma minoria da população brasileira, que pôde pagar por bons colégios particulares para que seus filhos chegassem a cursos prestigiados das melhores universidades públicas, ainda se incomoda ao vê-los passar a dividir as salas de aula com negros, indígenas e estudantes pobres vindos da escola pública. 

São estudantes que, antes de as cotas começarem a ser adotadas, em 2004, dificilmente estariam ali. Mas é possível que esse incômodo seja diluído à medida que parte dessa elite passe a se conscientizar de que as boas escolas públicas são mantidas pelos impostos pagos por todos.

Há também casos como o da fisioterapeuta Silvia Martinez, que sempre pagou boa escola particular para a filha que, neste ano, ficou na lista de espera da Universidade de Brasília (UnB). “Se não houvesse vagas reservadas para as cotas, ela teria entrado na primeira. É uma mudança de mentalidade, talvez leve algumas gerações para ser culturalmente assimilada. Mas, por uma questão de justiça social, valerá a pena”, opina.

É uma visão que faz sentido. Um estudo dos pesquisadores Jacques Velloso e Claudete Batista Cardoso, da UnB – a primeira a adotar cotas para negros e pardos, em 2004 –, simulou as chances de ingresso de candidatos negros em processos seletivos no período entre 2004 e 2008 caso as cotas não existissem. Na maioria dos casos, as cotas mais que dobraram as probabilidades de ingresso desses candidatos.

Para completar, no final de agosto de 2012 a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei nº 12.711, que disciplina o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio. 

O prazo é de quatro anos para que essas instituições passem a reservar metade das vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. Desse percentual, metade é para estudantes de famílias com renda de até 1,5 salário mínimo per capita.  

Adversidades 
Por meio da imprensa conservadora, os porta-vozes da classe social que o ex-governador paulista Cláudio Lembo batizou de “elite branca” empreenderam uma verdadeira cruzada. Espalhou-se uma visão enviesada, segundo a qual as cotas ferem o princípio da igualdade e do mérito acadêmico, são ineficazes já que o problema estaria na péssima qualidade do ensino básico público, e não na má distribuição de renda –, rebaixam o nível acadêmico, desfavorecem os brancos mais pobres em detrimento dos negros e prejudicam essa população ao estigmatizá-la como incompetente. Para completar, esses setores da imprensa tentavam fazer crer que a sociedade brasileira é contrária à política.

Todos esses mitos, porém, estão sendo derrubados. Em 2006 e 2008, pesquisas do instituto Datafolha indicavam, sem alarde, que mais de 80% da população aprovava as cotas. Em fevereiro passado, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma pesquisa do Ibope que mostra que 62% dos entrevistados (dois em cada três brasileiros) apoiam cotas em universidades públicas para alunos negros, pobres e estudantes da escola pública. 

A pesquisa foi realizada em todas as regiões brasileiras e constatou que é maior (77%) o apoio às cotas para os de baixa renda e/ou conforme a origem escolar dos pretendentes, seguido por 64% de aprovação às baseadas em critério de raça. A oposição é maior entre os entrevistados brancos, das classes A e B, moradores das capitais, em especial nas regiões Norte e Centro-Oeste. E menor entre os estudaram da 5ª à 8ª série, emergentes da classe C, nordestinos e moradores do interior. Segundo o jornal, os que buscam ascensão social e econômica são mais simpáticos a políticas que aumentem suas chances de chegar à faculdade. A pesquisa mostra que, em todas as camadas sociais, o apoio é maior que a contrariedade.

O recado da pesquisa é claro: está aprovado o mecanismo que permitiu aumentar a presença de populações excluídas nas universidades. “De 2004 a 2011, a proporção de pessoas pertencentes à faixa de menor renda aumentou sua presença no ensino superior, passando de 0,6% para 4,2%. No mesmo período, a inserção dos pretos saltou de 5% para 8,8% e dos pardos, de 5,6% para 11%”, diz o professor e pesquisador João Feres Júnior, do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). 

População esclarecida
Na avaliação de frei David Raimundo dos Santos, diretor da ONG Educação e Cidadania de Afrodescendentes (Educafro), a aprovação das cotas é fruto do entendimento dos argumentos sólidos dos defensores da medida. “Com humildade, sabedoria e vigor, essas pessoas levaram esclarecimento à opinião pública, o que não aconteceu com os críticos que apareceram em 90% de todas as reportagens contrárias publicadas nesses 10 anos”, diz. “Quando a imprensa aprofundar o debate de maneira responsável, a tendência é a aprovação aumentar ainda mais.”

Entre os que não apoiavam as cotas e mudaram de ideia está o juiz federal William Douglas, do Rio de Janeiro. A princípio contrário à reserva para negros, ele passou a defender o aperfeiçoamento das ações afirmativas.

Branco, filho de pai lavrador e mãe operária, enfrentou dificuldades para chegar aonde chegou, mas não acredita mais na exigência do que chama de heroísmo. 

“Minha filha estuda em colégio caro, onde nada falta, com professores bem pagos e ótima estrutura. O mesmo não acontece com a maioria das crianças pobres, que estudam em escolas sem professores, carteiras ou banheiros. Não é justo nem honesto que todos sejam exigidos da mesma forma na hora de ingressar na universidade”, diz.Entre os que não apoiavam as cotas e mudaram de ideia está o juiz federal William

Como lembra frei David, há cotas apenas para o ingresso. A permanência e a conclusão são por conta do aluno. E, com o mesmo nível de exigência durante o curso, os cotistas têm demonstrado capacidade de superar as deficiências do ensino básico e render igual ou melhor que não cotistas. Em 2008, foi constatado que o desempenho acadêmico dos cotistas negros era de 6,41 e daqueles das escolas públicas 6,56, acima do 6,37 dos não cotistas. Além disso, a taxa de conclusão dos cursos era maior.

Dados semelhantes foram encontrados na Universidade Estadual de Campinas. Embora as estaduais paulistas não adotem sistema de cotas, a Unicamp tem um programa que concede pontos adicionais na nota do vestibular dos egressos da rede pública. A comissão permanente para o vestibular constatou que a nota média desses alunos beneficiados foi mais alta que a dos demais.

Outra resposta ao discurso de que a política de cotas seria demagógica e os beneficiados abandonariam o curso vem de um estudo da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A maioria dos cotistas já tinha cumprido a maior parte dos créditos das disciplinas e o desempenho estava entre os mais altos em cursos como Matemática, Física, Engenharia Elétrica, Ciências Biológicas, Odontologia, Farmácia, Filosofia, Comunicação, Nutrição, Psicologia e Direito. Os cotistas também estiveram menos sujeitos a reprovação por faltas.

Primeiro aluno a ingressar na UFBA por meio de cotas, Icaro Vidal formou-se em Medicina em 2011. Negro e oriundo da escola pública, viu graduarem-se inúmeros “grupinhos” de estudantes brancos, formados nas melhores escolas particulares de Salvador. Nunca fez parte de nenhum deles, tampouco sentiu na pele preconceito por ser cotista. Mas sabe que existia, de forma velada. 

Médico do Programa de Saúde da Família da Prefeitura de Salvador e servidor estadual num instituto de criminalística, Icaro agora torce pela educação brasileira. “As cotas facilitam a entrada na faculdade, mas isso não é tudo. É preciso melhorar a escola pública. Atendo adultos e crianças de 12 anos que não sabem ler nem escrever.”

RBA